Precisamos falar sobre ’50 tons de cinza’ (e sexo)

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Aconteceu: eu fui ver ’50 tons’. A verdade é que eu sempre tive um bode com essa história, não via muita graça numa fanfic de Crepúsculo, já que nem o original havia me seduzido (eu li até uma parte do segundo e desisti, a Bela me irritou profundamente), e achava um exagero a galera endeusando mais um romance água com açúcar, onde um cara exerce o papel de príncipe salvador sentido da vida na história de uma mulher desinteressante e desinteressada.

Precisamos falar sobre ’50 tons de cinza’ (e sexo)

O tempo passou e agora, com o lançamento do filme ficando cada vez mais próximo, a Lívia (@aquelalivia, do Clube do Livro Erótico e minha amiga da faculdade!) começou a fazer uma leitura comentada do livro no seu twitter. Todo dia à noite ela comentava um pedaço. Foi aí que resolvi prestar atenção de novo nessa história. Não, eu não fui fisgada, haha. Na verdade eu fiquei preocupada, assim como a Lívia, sobre como aquele relacionamento central era tratado no livro.

Eu ainda não li o livro, mas talvez eu leia, pra gente poder falar especificamente do que acontece nele (não me sinto confortável em falar de alguma coisa que eu não conheço, né), mas a Lívia fez um vídeo, junto com a Isadora, especificamente sobre isso:

… Mas eu vi o filme. Fui ontem com Lucas e Tamara. Amigues, que experiência foi aquela?! Saí tão desconcertada que gostaria de discutir alguns pontos com vocês. Me acompanhem, por favor?

ANASTASIA

No começo, ela me cativou. Achei a garota com atitude, voz, vontade própria, certo humor… Mas depois, acho que o roteiro realmente não dava muita abertura, ela foi ficando cada vez mais insossa, mais choramingona, e de uma menina que diz “ainda posso exercer meu livre arbítrio, não?” ela passou a ser uma que abandona toda a sua personalidade, sua rotina, em nome de um cara que não é o que ela quer, mas que ela tem a plena convicção que vai mudar.

Por que raios ainda querem nos fazer acreditar que um cara “errado” só precisa de uma mocinha pra salvá-lo? Não é assim que funciona. E no final muitas vezes a mocinha acaba extremamente magoada e frustrada porque “não conseguiu” mudar o tal homem da sua vida. Não sei por quê, haha, mas tenho a impressão que no fim dessa trilogia ela acaba por “mudar” o Mr. Grey. E se sim, que grande desserviço aos relacionamentos verdadeiros, hein.

Além disso, me dói ver uma personagem se curvar TANTO aos mandos e desmandos do parceiro. Relacionamentos saudáveis e felizes envolvem que o outro ceda. Mas é uma troca, é uma relação de respeito e de igualdade. Não de mestre e submisso. Isso pode valer pra dentro do quarto, na hora do sexo (se for da vontade dos DOIS), mas na vida real não tem nada de saudável. Ou mágico. Ou perfeito. Ou ainda, ideal.

Tem um momento em que Anastasia diz à família do Grey que vai visitar a mãe. Ele fica putíssimo porque ela ainda não tinha lhe dito e ele COLOCA ELA NO OMBRO E SEGURA PELAS PERNAS. Tipo um homem das cavernas, gente! Em outro momento, ele diz que ela não pode beber. Em outro, fica com ciúmes dos amigos dela. É uma relação tão obsessiva, tão não saudável. Ela não pode em hipótese nenhuma ter uma vida. Ela tem que ter a vida que ele quer (com os presentes que ele compra, com as roupas que ele manda o motorista comprar, comendo o que ele acha que deve, indo à médica que ele escolhe…).

O MITO DO PRÍNCIPE ENCANTADO

Ele é bonito, bem sucedido, rico pra caramba, teve um monte de mulheres antes, mas só se apaixona, claro, por ela. Uma virgem que esteve esperando por ele o tempo todo (nada contra virgens, só contra o conceito social de que uma mulher virgem é mais virtuosa, mais especial, tem mais valor  – pra mim isso se baseia em ações, caráter, valores, não se a mulher já fez sexo ou não), inclusive diz isso num diálogo vergonhosíssimo – mas já vamos chegar lá – quando conta que é virgem, ele pergunta “Onde você estava?”  e ela “Esperando”. Ai! gente! Ele é também o cara que te busca de helicóptero (?!?!) pra um encontro, te dá um computador novo, um carro novo, te compra roupas novas e te oferece um quarto “de princesa” em sua casa.

Fala “sujo” (hahaha). Te joga na cama. Te carrega no colo tipo aquela cena do noivo e da noiva na noite de núpcias (e os clichês vão se acumulando). Ele te liga o dia todo, quer saber onde você tá, com quem você tá, o que vai fazer, com quem vai fazer. Mas ele não conversa. Não deixa que encoste nele. Não vai ao cinema. Não namora.  Tem problemas com relacionamento e intimidade. Não se abre. É meio problemático. Seu gosto peculiar no sexo tem a ver com um trauma de infância (dica: fetiches não são doenças, não derivam de um trauma não, viu gente). Pronto. Ta aí seu Christian Grey. O suposto “homem perfeito”. O cara que “todas as mulheres querem”.

Vi um vídeo da Cinthya Rachel sobre ’50 tons’ e ela falava: “Isso não é amor. Isso é cilada”. E eu não tenho como concordar mais. Esse homem não é perfeito. Ele é cilada. Na minha opinião, amor é quando um homem divide sua vida com você. Divide com você seus medos, seus sonhos, o que gosta, o que não gosta. Um homem que compartilha. Que quer construir algo ao seu lado, com você (e sua personalidade, não uma versão que ele quer da sua personalidade). Todo o resto, quando isso não existe, é só uma tentativa de suprir o amor de verdade.

O SEXO

Até pouco tempo atrás, a gente só se preocupava com a visão idealizada de amor que Hollywood e a indústria cultural vendia como verdadeira pra gente (e pros adolescentes, pras crianças, etc). Agora a gente tem uma nova categoria: o sexo idealizado. E aqui ele é ainda pior que o sexo do filme pornô (também exemplo do sexo inverossímil), porque ele é de massa. Todo mundo vai ver, não tem tabu, não tem salinha com cortina, não tem medo de alguém chegar de repente em casa e te pegar no flagra. As pessoas tão indo ver esse filme com a família, gente. E claro que o problema não é que “ai, é muito pesado”. Se tem uma coisa que eu não sou, é moralista. Acho até legal sexo ser menos tabu, pra variar um pouco.

Mas o problema é que QUE SEXO É AQUELE? É tudo de mentira. Tudo esterelizado, muito limpo, muito ritmado, sincronizado, com começo, meio e fim. E ele encosta nela e ela geme. Ele encosta de novo, ela sente mais prazer. Mais uma encostadinha, mais uma onda de prazer que ela não se aguenta. E isso tudo na primeira vez da mocinha. Parece mágica, gente. Parece que é tipo apertar um botãozinho que pronto, em alguns minutinhos, se você manusear aqui e ali, a mulher vai ter um orgasmo. Gente, para! Isso é sexo de conto de fadas.

A gente precisa mesmo de um filme mostrando pras mulheres que ‘nossa, olha só esse homem, ele sim sabe dar prazer a uma mulher’, sendo que aquilo não existe? Tem uma pesquisa que diz que 70% das mulheres já fingiu um orgasmo. Claro que já, porque mulheres ainda têm vergonha de se conhecerem e faltam homens dispostos a explorarem (isso num relacionamento hetero, o foco aqui por causa do tema do filme). E porque o povo fica achando que sexo é isso que mostram nos filmes. Resultando em mulheres frustradas – que muitas vezes foram ensinadas que não devem gostar de sexo – e homens acomodados.

O sexo retratado em ’50 tons’ é tão falso quanto as frases “picantes” que o Christian Grey solta (aquela do ‘eu não faço amor, eu fodo – forte’, é de querer morrer de tão ruim), sem nenhuma convicção, sem nenhuma paixão, sem nenhuma verdade, e as mordidas no lábio inferior que a Ana dá toda vez que ela está ‘excitada’ (a frase que merece um prêmio é quando ela morde o lábio e ele diz ‘eu gostaria de morder esse lábio’ com a sensualidade de um bisturi numa mesa de cirurgia). Eu e meus amigos rimos muito, porque é tão absurdo, que só nos restou rir. Ah, e o sadomasoquismo? Não existe, né.

Aquilo não é sadomasoquismo (“A História de O” é sadomasoquista pra valer, por exemplo). São brincadeirinhas eróticas. Uma corda aqui, um chicotinho de leve acolá. Quando ele bate mesmo nela, depois que ela pede, é que ela não gosta. Mas o roteiro é tão mal amarrado, tão sem pé nem cabeça, que você fica se perguntando o que foi que aconteceu? Como fomos parar ali?

E tem outra coisa: Christian quer sexo. Anastasia quer amor. Claro que ele vai se apaixonar por ela, isso a gente já sabe. Mas vale lembrar que sexo não necessariamente está relacionado com amor. Pode ser casual, pode ser sem sentimento (e pode ser com sentimento também, claro), mas ficam perpetuando essa ideia de que uma coisa tem que estar relacionada a outra. Ou que ‘mulher só faz sexo se está apaixonada’. E essa outra ideia, de novo, de que o cara que gosta de farrear por aí e sair com várias mulheres só o faz enquanto não encontrar a… mulher certa. Vamos mudar o disco? Ser mais progressistas, mais atuais, mais 2015, mais pró mulher com desejos e caras não babacas?

Meu grande problema com esse filme é a perpetuação de estereótipos que em pleno 2015 deviam estar se extinguindo, fazendo cada vez menos sentindo, mas eles voltam, com força total, pra deixar tudo mais difícil, de novo. Não precisamos de mais garotas crescendo achando que precisam ser submissas a alguém, que precisam ser “puras” (se a mina escolhe ser virgem ou se escolhe não ser, isso não deveria ser medida de valor sobre ela), que precisam ser insossas e sem muita atitude, caso contrário vão assustar os homens.

Não precisamos de mais mulheres achando que existe um tipo de cara ideal. Um príncipe encantado que vai te salvar da sua própria insignificância. Que vai trazer sentido pra sua vida. A única pessoa capaz disso somos nós mesmas. Nós é que somos nossas próprias heróinas. Sujeitas de nossa própria história. Chega desse machismo de que a mulher ideal é santa na rua e vadia na cama – com o namorado/marido, claro. E de que o cara ideal é galinhão, malvadão, babacão, que vai mudar com a mulher ‘certa’. Não dá mais, né gente?

Amor, amor de verdade, faz mais feliz do que triste. Machuca muito menos do que alegra. Tem mais sorriso do que choro. Mais risada do que grito. O contrário disso não é amor. É um relacionamento doentio.

E por último, não precisamos de sexo idealizado. Sexo tem cheiro, tem calor, tem suor, tem corpos de todos os jeitos, de todos os tamanhos, com pelos e sem pelos, com troca de fluídos, com barulho, com jeitinho, com carinho ou mais bruto mesmo, com constrangimento às vezes sim, às vezes não, e que pode ser muito bom, mas pode não ser também. É um ponto positivo quando as mulheres leem algo esse tipo de livro e se empoderam a ponto de buscar novas formas de prazer. Vira um problema quando o que era incentivo vira modelo ideal. E eu acho que a vida real é muito mais legal do que os filmes. Simplesmente porque ela existe.

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